quinta-feira, outubro 21

CHÁ QUENTE #9


Antero de Quental
“(…) Falemos dos vivos. Os vivos não são os que levantam ruidosamente o pó dessas estradas sob as rodas dos seus carros opulentos. Não são também os que falam alto e apresentam ante os olhos sensuais da turba envoltos nas dobras enganosas do manto de lantejoulas das frases vagas mas brilhantes com que se captam os sentidos de quem não tem razão nem sentimento. Não são ainda os sábios profetizando do centro de suas nebulosas, lançando, em meio das nuvens da palavra, os oráculos de uma ciência sem fé e sem alma, vendida aos factos, à espera sempre dos acontecimentos para se inspirar deles na composição artificial de sistemas, que o mundo aceita porque o absolvem, mas que rejeita a Razão por que não são livres. Os vivos, enfim, não são os que mais o parecem; os ruidosos, os activos que já de longe se vêem e ouvem: como em tempo de epidemia não está a saúde no homem que anda, gesticula e corre, encobrindo sob a sua agitação febril o veneno do mal que em breve o fará cair extenuado. Tudo isso que por aí tumultua, freme e enche o ar de ruídos, obedece à excitação da febre precursora da morte. A vida não é o movimento desordenado: e nos gestos deles não há harmonia nem ordem. Tudo isso é o gozo e a matéria: mas a vida é a consciência e o espírito (…)”

Nota final da 1.ª edição das «Odes Modernas», in Antologia Poética de Antero de Quental, Selecção e notas de Ruy Galvão de Carvalho

5 comentários:

Ana F. Afonso disse...

A questão é que nos tempos que correm nem é preciso ser sábio. Basta ter olhos, ouvidos e boquinha para apetecer fazer ruido sobre as parvoíces que vemos a certos vivos.

gmarinho disse...

Mas Ana, a questão que se nos coloca é saber se queremos com os nossos olhos, ouvidos e boca fazer coro com o ruído ou acabar com ele.

Ana F. Afonso disse...

Nem sempre os ditados populares são válidos porque há as excepçõesm, que existem exactamente para confirmar regras.
Eis porque neste caso se não pudesse vencê-los não me juntaria a eles.
E nota, para combater certos ruidos nunca o faria com armas idênticas. Prefiro bons sons ;-)

gmarinho disse...

Boa ideia, vou começar a ver o telejornar ao som de jazz como já faço com o futebol ;)

Anónimo disse...

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